Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

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O SONHO DA INDIA

Esta peça teatral de 1898, é uma preciosididade rara escondida nos escarates. De relevante interesse documental e de um retrato das formas de vida dessas épocas, com Portugal no topo do mundo em matéria de navegação. Um presente valioso aos nossos leitores, tal o fascínio que nos suscita.

D. Pedro de Noronha – Acharam o fim de Africa, um terrivel cabo e dobraram-n`o!
D. João II – Viva Deus! Eu não vos dizia, Mestre Rodrigo, que ella tinha um fim. Obrigado D. Pedro, pagar-vos-hei vosso serviço. Meus Senhores, vou para Lisboa hoje mesmo; apparelhae-vos para a viagem. Oh! Bartholomeu Dias, preciso abraçar-te. (Ao principe). Estás ahi Affonso? Vou a Lisboa, queres ir ou ficar?
Affonso de Paiva – Quero ir comvosco.
D. João II – Pois vem. Vamos dizel-o à rainha. Que alefria ella vae Ter! Mascarenhas, que tudo seja prompto, d`aqui a uma hora.
O Fildago – Sim, meu Senhor. (Sae com o principe. Seguem-n`o).

                PERSONAGENS DO QUADRO SEGUNDO

Pero de Alemquer, piloto; Martim Alho, taberneiro; 1º Popular; 2ª Popular;1ª Freguez; 2ª Freguez; Maria Parda; Um escudeiro

                                   QUADRO SEGUNDO

Uma taverna, ou tavolagem, na Ribeira. As mezas, marinheiros, frades, populares, judeus, etc. Pela porta do fundo populares passam apressados. É manhã.
Martim Alho, ao balcão, a um freguez que bebe de pé – Que azafama, hein?
1º freguez – Se vos parece que o caso é para menos.
Um escudeiro – Pois que ha? Tantos capitães têem chegado, sem este barulho.
1º freguez – Mas é que este, pelos modos, fez alguma cousa de maior.
Martim Alho – e assim não fôra não viria El-Rei de Santarem a toda a pressa, esta noite para o receber.
Um escudeiro – E quem é o homem?
Martim Alho – Bartholomeu Dias. Parece que andaes na lua.
1º freguez – Martim Alho, é que o vosso vinho tira a memória.
Martim Alho – A quem a não tem.
Um escudeiro – Olhae Maria Parda como dorme.
Maria Parda que escabeceia sobre uma mesa – Hein? Eu? É do vinho talvez? Ainda o não provei, hoje. Que o diga ali o Martim, - que é mais avaro do que um mouro de Alfama - se lhe puz os beiços.
Martim Alho – Se pagas, bebes.
Maria Parda – Obrigada. Bebi hontem o chale, hoje a peneira, que diabo queres tu que eu beba mais? (Levanta-se cambaeando) Não é porque não tenha sede que essa nunca acaba.
Um escudeiro – Tens sêde?
Maria Parda – Como um condemnado, no inferno. (ao balcão).
Martim Alho – Se queres agua...é do Borratem.
Maria Parda – Bebe-a tu. Isso é bebida de rãs. (Ao escudeiro) Eh! Escudeiro de má morte, nao te descoses, hein?
Um escudeiro – Só se fizeres uma trova.
Maria Parda – A quem?
Martim Alho – A mim.
(Os freguezes cercam-n`a; um toca viola)
Maria Parda, canta – Martim, soccorre-me agora,
Seja fiado ou de graça, que já não sei que mais faça!
 C´o a sêde que me devora; Martim Alho, meu amigo,  Martim Alho, amigo meu,  tâo sêcco trago o umbigo como nariz de judeu.
     (G.Vicente.)
   (Gargalhadas)
Um escudeiro – Ganhaste. Meia canada para a Maria Parda.
Maria Parda – Meia! Só! (o taberneiro dá-lh`a) Ora vão lá trovar para estes pelintras! Enfim...vivam! (Bebe)
(Grande ruido na rua. Correm alguns freguezes à porta)
2º Freguez – É a maruja que desmbarcou.
Maria Parda – Chamem-nos que devem trazer bons cruzados.
1º Freguez – É Pero de Alemquer.
Martim Alho – Qual? O piloto?
1º Freguez – Esse.
Maria Parda – Conheço... e é generoso.
(Pero de Alenquer apparece à porta, seguido da populaça ruidosa)
1º Popular – Dá-nos novas.
2º Popular – Que tal  a viagem?
(Pero entra)
Martim Alho – Vens mais negro.
Maria Parda – E mais guapo.
Pero de Alemquer – Olha a Maria Parda. É dos teus olhos. Ainda vives?
Martim Alho – Está de vinha de alhos.
Maria Parda – Quem dera!
2º Popular – Então sempre chegaram à India?
Martim Alho – Conta lá, Pero.
Pero de Alemquer – Estás ainda curioso, Martim Alho? Dá-me primeiro uma sêde de vinho para desnferrujar a lingua.
Martim Alho – Deveis vir desejoso, que lá por essas terras de gentios nao será facil proval-o.
Pero de Alemquer – Imaginas que o Seixal ou Azeitão ficam para lá da linha?
Um escudeiro – E o que vae nas pipas?
Pero de Alemquer – Esse fica pelo caminho. Bebem-n`o os peixes, que o vasilhame vae-se na dança do mar. ( O taberneiro dá-lhe vinho) Dae a esta gente.
Maria Parda – Santa Palavra, nem de conego.
Martim Alho – Mas diz lá, homem, acharam emfim o Prestes João?
Pero de Alemquer – Qual Prestes João nem qual diabo! Se elle é lá para o meio da Africa e nós andámos-lhe á roda!
1º Freguez – Á roda?
Pero de Alemquer – É como dizeis.
Martim Alho – Á roda de Africa? Acabou a costa?
Pero de Alemquer - Não acabou, que lá está; mas tem fim, e esse achamo-l`o nós.
2º Freguez – É como diz o fim do mundo?
Pero de Alemquer – Quasi.
Maria Parda – Conta, Pero.
Pero de Alemquer – E chegados ao fim voltámos para o outro lado, e se não foram os perros dos marinheiros – coitados, elles tinham razão não havia um com saude, nem co força de beber meia canada...
Maria Parda – Essa agora... (Risos)
Pero de Alemquer – Pois se não fossem elles, tinhamos chegado ou ao Prestes ou á India, ou onde o demonio fosse. Cousa grande com certeza, que d`isso estava convencido o capitão, e elle não se engana.
Martim Alho – Bartholomeu Dias?
Pero de Alemquer – Pois quem? Quem ha ahi que se entenda com o mar como elle?
Martim Alho – E trouxeram escravos?
Pero de Alemquer – Quaes escravos? Se até lá deixámos os que Diogo Cão trouxe da ultima viagem.
Martim Alho – Conta lá isso homem. Por miudos...
Pero de Alemquer – Mas enche a medida, que tenho mais sal na garganta do que nas marinhas do Tejo. (Senta-se sobre uma das mezas) Lembram-se que partimos d`aqui vae para dezasete mezes. Iamos em dois navios: o do capitão Bartholomeu e o do João Infante, que é tambem um marinheiro, ás direitas. Eu era piloto do primeiro. Ía tambem a barca dos mantimentos, com Pero Dias, irmão do meu capitão. Pois por ahi fóra fomos, sem novidade, até chegar á Mina, onde El-Rei mandou fazer uma rica fortaleza, e correndo ao longo da Guiné, chegámos ao Zaire. Passámos o Congo, chegámos a Mossamedes, e lá vimos o ultimo padrão de Diogo Cão. Continuámos até á Angra do Salto. Tambem lá saltámos, e deixámos os negros que o Diogo ali apanhára.
Martim Alho – Para que?
Pero de Alemquer – Por ordem de El-Rei; que quer paz e amizades por onde passarmos e não desordens. Assim entenderá que é melhor. Para diante é que ninguem tinha passado. O capitão cheio de fé e de alegria dizia-nos: «agora, nós, rapazes; tudo o que se fizer a mais será em gloria de El-Rei, e elle não é mesquinho em mercês». Velejando para o sul, na primeira bahia saltámos em terra, puzemos o primeiro padrão – de S. Thiago – e deixámos a ultima negra.
Um escudeiro – E como a deixaram?
Pero de Alemquer – Entregámo-l`a aos patricios.
Martim Alho – Viste l`os?
Pero de Alemquer – Nunca vi raça mais feia de gente.
Um escudeiro – Sim, hein?
Pero de Alemquer – Os homens têem o nariz rombo e chato como uma cabeça de pescada, e uns beiços que parecem forrados de baeta.
Uma Mulher – E as mulheres?
Pero de Alemquer – De cara, o mesmo; mas tem outras graças. Cáe-lhe a barriga, ou o que é, pelas pernas abaixo, que parece que andam de aventaes de ferreiro, e por detrás, ó rapazes... ( Faz o gesto de indicar grandes nadegas)
1º Popular – O que é?
2º Popular – Como são por detrás?
Pero de Alemquer – Têem um assento (Gargalhadas) que não cabe n`uma cadeira de bispo.
Um escudeiro – Grande, hein?
Pero de Alemquer –Quando andam, pela côr, ao longe, parece que trazem um ôdre atado á cintura.
Maria Parda (acordando)-  Com vinho?
(Gragalhadas)
Martim Alho – Andam despidas.
Pero de Alemquer – Como as mães as deitam ao mundo. (Com gestos) Os filhos assentam-nos n`aquelle andaime e atiram-lhes os peitos por cima do hombro. O rapaz agrra-se e mama. (Risos)
Martim Alho – Depois, depois?
Pero de Alemquer – Para diante fomos parar ao Cabo das Voltas, como lhe chamou o capitão, ao pé de um rio, tamanho como o Tejo.
Martim Alho – Porque lhe chamaram das Voltas?
Pero de Alemquer – Porque estivemos cinco dias ás voltas com o vento, sem o poder dobrar. Saímos ao sexto dia levados por elle, e agora o verás. Fomos atirados para o mar, sem mais posses nem governo! Mar e vento nunco os vi assim! Nem signal da costa, nem rumo! Manobra vão lá fazel-a: aguaceiros, chuvas de arrazar, nevoeiro fechado e isto a voar pela agua, sem se saber por onde nem para onde!
1º Popular – E quanto tempo?
Pero de Alemquer – Uma bagatella: treze dias!
Vozes – Eia! Com S. Pedro!
Martim Alho – Como pararam?
Pero de Alemquer – Esfriou de repente o ar, que regelava. O vento abrandou. Onde estavamos? Toca a virar a leste á procura da costa. Nada de costa; mar e mais mar. Vira-se ao norte e, em dois dias, terra pela proa! Saltámos n`uma angra onde pastavam vaccas: os vaqueiros, mal nos viram, fugiram terras a dentro. Chamámos-lhe a Angra dos Vaqueiros. Vaqueiros não apanhámos nenhum...
Um escudeiro – Mas apanharam vaccas...
Pero de Alemquer – E comemol-as.
1º Popular –E que tal a carne?

 


Pero de Alemquer – Carne de vacca. Imaginavas que era salgada?
1º Popular – Não, que era preta.
Pero de Alemquer – As vaccas não são filhas dos pretos. (Risos) Martim, tenho a lingua secca, de tanto fallar.
Maria Parda – E eu de ouvir.
(Risos. O taberneiro enche)
Martim Alho – Vá, segue.
Pero de Alemquer – Seguindo a leste, saltámos n`outra bahia – de S. Braz. Ahi a pretalhada recebeu-nos com zagunchos e pedras. Demos cabo de alguns e partimos, até chegar a outra angra deserta, onde pozémos o padrão até Santa Cruz. Ora, aqui, a marinhagem e os mestres começavam a murmurar. A costa era ingrata, os navios estavam cançados, os homens caíam, pelo chão, doentes!
Martim Alho – E o capitão?
Pero de Alemquer – O capitão fingia não perceber, porque lhes dava certa razão. Até que um dia – para evitar algum damno – chamou-os a todos, e pediu-lhes coragem e prudencia. Diziam que estavam cançados e doentes. Com boas palavras, lhes respondem e pediu que o ajudassem. Clamavam que não podiam mais, que não tinham forças... Então o capitão pediu mais tres dias! só tres dias! de viagem, porque tinha esperança de encontrar alguma grande novidade! E que se não, então voltariam as proas para trás e velejariam para Portugal.
Matrim Alho – E deram-lh`os? Os tres dias?
Pero de Alemquer – Ninguem podia negal-os. O capitão era um pae para todos, todos lhe queriam bem.
Um escudeiro – E ao fim dos tres dias?
Pero de Alemquer – Viu-se um grande rio, deserto. O primeiro que saltou na praia foi João Infante. O rio ficou com o nome d`elle. D´ahi voltámos...
Martim Alho – Para trás?
Pero de Alemquer – Para trás! A marinhagem conjurada, avisou de que não embarcaria senão para Portugal. Estavam n`um mar novo, desconhecido e começou a invadil-os o medo de maiores trabalhos! Queriam voltar á sua terra. Mestres e officiaes concordavam. O capitão cedeu. Lavrou-se um auto assignado por elles, em como o capitão era obrigado a voltar...e voltámos. Foi á volta que vimos o cabo.
Martim Alho – O capitão havia de lhe ter custado...
Pero de Alemquer – Coitado! Elle lá a tinha fisgada de que não se devia parar ali. Entristeceu...e quando, voltando, assámos pelo padrão de Santa Cruz, que alvejava n`um morro sobranceiro á praia, o capitão encostado á amurada, poz-se a olhal-o, a olhal-o, a arrazarem-se-lhe os olhos de lagrimas, até...chorar!
Vozes – Chorou!
Pero de Alemquer – Vi-o, eu! Abeirei-me d`elle e disse-lhe: tendes saudades d`aquele padrão? Ah! Pero! É como se deixasse um filho! Mas heide vêl-o outra vez! (Limpando uma lagrima) E... havemos! (Pega no copo, bebe e levanta-se. Atira uma moeda ao balcão)
Pero de Alemquer – Paga-te, Martim.
(Ouve-se sussurro ao longe)
Matrim Alho – E na volta? Não houve cousa de maior?
Pero de Alemquer – Ah! Faltava um caso. O mais triste! Ao pé do Cabo das Voltas tinhamos deixado a barca dos mantimentos para refrescarmos, quando voltassemos, com uns vinte homens. Os negros da costa assaltaram o navio e mataram alguns dos nossos: a febre matou outros. Quando lá chegámos só havia tres, vivos; e um d`elles tão fraco e doente que com a alegria de nos ver outra vez, morreu! Chamava-se Fernando Collaço, e era do Lumiar.
Vozes – Deus lhe falle n`alma.
(Ouve-se grande ruido de povoléo. Tiros no rio. Cornetas)
1º Freguez – Vinde ver. Vinde ver.
Vozes – O que é?
1º Freguez – É Bartholomeu Dias que vae para o paço. E João Infante...
Um escudeiro – Eh! Pero e tu? Vou apanhal-os. (Sáe e atrás d`elle, excepto Maria Parda, toda a chusma)
Martim Alho, pondo o barrete e abotoando o gibão – Leva arriba, Maria Parda, que vou fechar.
Maria Parda – A esta hora?
Martim Alho – A ronda hoje é mais cedo. Vá? (Empurrando-a)
Maria Parda – Tende cuidado.
Martim Alho – Que podeis bolsar?
Maria Parda – Até os taberneiros vão ao paço? E não ha de o vinho estar caro! (Martim Alho leva-a fóra da porta, sae para a rua e dá a volta á chave)
Quadro Terceiro
Lisboa. Um salão, no paço. O Rei D. João II, o filho, a côrte.

D. João II, a Bartholomeu Dias que entra. Erguendo-se – Sêde bemvindo. Anceio por ouvir-vos, valoroso capitão. (Bartholomeu Dias vae beijar-lhe a mão) Que nova me trazeis?
Bartholomeu Dias – Senhor, não aquella que eu quizera trazer e que mereceria ouvir um tão grande rei como vós; mas a que o favor de Deus me concedeu que vos trouxesse.
D. João II – Esse misterioso rei não apareceu ainda?
Bartholomeu Dias – De certo que o seu reino mais perto é do que aonde fomos, que não pode haver reino christão entre gentes bestiaes, vivendo á regra da natureza.
D. João II – De onde vindes, então?
Bartholomeu Dias – Do caminho do Oriente; o sol nascia-nos á direita depois de dobrarmos o cabo.
D. João II – E como o dobrastes?
Bartholomeu Dias – Com as tempestades em que se envolve e em que andámos perdidos por treze dias, à mercê de Deus!

publicado por promover e dignificar às 17:33

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