Quarta-feira, 12 de Março de 2008

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O SONHO DA INDIA

 

D. João II – Tem então fim esse continente? Essa costa acaba? Um mundo novo existe por detrás, e é um portuguez, és tu, meu bravo, que o vens dizer ao mundo! Como sou contente e como vos saberei pagar a gloria que me daes. (Dirigindo-se ao grupo dos navegadores) Foi então terrivel a passagem?
Bartholomeu Dias – Dizer-vos o que aconteceu, n`esses treze dias, em que o vento nos atirou da costa para o mar; como navegámos, por onde, em que direcção; a cerração e nevoeiros que nos envolviam; o mar immenso que alagava as naus; as chuvas continuas, os trovões que entonteciam a marinhagem espavorida, eu não o sei, Senhor. Não posso.
D.João II – O passo foi delicado.
Bartholomeu Dias – Eu vol-o juro, Senhor. Um milagre nos salvos, porque todos os nossos esforços se limitaram a Ter coragem e...esperar! Amansou, emfim, o mar e o vento, aclarou o ar. A terra desapparecêra completamente. Sentia que não conhecia aquelle mar. A côr? a vaga? porque? Não sei. Procurámos a costa a leste, não se encontrou. Valeamos ao norte: uma nuvem, ao longe, fixa, sobre o mar... Approximámo-nos: terra!

D. João II – Tinha voltado a Africa.
Bartholomeu Dias - Assim era.
D.João II – Que grande piloto é Deus! E como chamastes ao Cabo?
Bartholomeu Dias – O Tormentoso.
D. João II – Seria justo; mas tel-o dobrado, e tel-o conhecido, enche de tal esperança a minha alma, que vos peço que lhe mudemos o nome.
Bartholomeu Dias – Como quizerdes, Senhor.
D. João II – Chamemos-lhe: Cabo da Boa Esperança.
Bartholomeu Dias – Assim seja.
D. João II – E a costa do outro lado?
Bartholomeu Dias – Arida e deserta, na maior parte. Em angras successivas deixei os vossos padrões. Combatemos na de S. Braz os naturaes que nos aggrediram, e na de Santa Cruz erigi o ultimo padrão.
D. João II – Ahi terminou a viagem?
Bartholomeu Dias – Não meu senhor; mas pouco mais subimos. Os trabalhos e doenças tinham enfraquecido os tripulantes. "É preciso voltar, é preciso voltar", diziam. Fingia não ouvir; mas os rogos tornaram-se em queixas. Viam-se n`um mar desconhecido, pensavam na extensão do caminho percorrido nos trabalhos precisos para voltar á patria. Percebi que o medo começava a invadir a gente. Porventura, transpunham para ali do velho mar tenebroso, as lendas que ouviram, aos avós, contar junto á lareira. Pedi-lhes tres dias mais de viagem, a elles, e a Deus que melhorasse o tempo. Elles ouviram-me, Deus não! Os trabalhos, as doenças tinham morto alguns. Chegava o desanimo ou o desespêro! Ao alcançar um largo rio a que chamei – Infante – tive de parar e...voltar. Ninguem me seguiria mais! Na volta vimos o cabo, eriçado de montanhas, envolto em nuvens tempestuosas. Marcamo-l`o com o padrão de S. Filippe. Um ultimo olhar a essa terra nova e...a caminho da nossa! Eis-nos Senhor; julgae do nosso esforço, e perdoae que mais não tenhamos feito d`esta vez; que pelo futuro, por mim, empenho a minha honra e a minha vida!
D. João II – Muito vos devo Bartholomu e saberei pagar-vol-o; (Ao grupo dos navegadores) e a vós todos, amigos, que não póde muitas vezes o corpo humano com os desejos da alma. (Levantando-se) Ide descançar, abraçar os vossos e voltae amanhã que terei pensado como vos pagarei tantos trabalhos e farei mercê (Bartholomeu e o grupo dos navegadores sae beijando a mão do rei) Mestres José e Rodrigo, Sr. Bispo de Ceuta, o que me dizes á nova?
Mestre José – Senhor, aclarou-se uma duvida de longos séculos!
Mestre Rodrigo – Abriu-se a porta de um mundo novo.
O Bispo de Ceuta -  Sois hoje o maior rei da Terra. Senhor de Portugal e dos Algarves d`aquem e d`alem mar em Africa, senhor da Guiné...
D. João II – E de que mais?
O Bispo de Ceuta – Só Deus o sabe, por ora; mas a audacia dos vossos navegadores vol-o dirá, em breve.
D. João II – Será este, emfim, o caminho do reino do Prestes João?
Mestre Rodrigo – Talvez; o que é certo é que este é o caminho de alguma cousa maior: o caminho do Oriente! O caminho das Indias!
D. Joao II, com a mão sobre a cabeça do filho – Deixae-nos, a sós.
(Os fidalgos saem. O rei abre uma janella gothica que dá para o Tejo) Deus começa a inclinar a cabeça para mim. Queres ver as naus, Affonso?
D. Affonso – Qual era a de Bartholomeu Dias?
D. João II - A maior. (Passeando alegre) Está dobrado o Cabo! E foi esse heóico Bartholomeu a quem hei de encher de honras e riqueza. Sabes, tu, o que quer dizer essa passagem? A realisação do meu sonho! Que dirias de quem fosse rei de Portugal, dos Algarves, Senhor da Guiné... não, imperador da Hespanha inteira e da Italia Hespahola, senhor dos estados do Oriente do Prestes João das Indias...
D. Affonso - Seria um verdadeiro imperador.

. João II - É esse o meu sonho, que hei-de realisar para ti!
D. Affonso - Meu pae.
D. João II - Para que trabalho desde que comecei a reinar? Era preciso levantar um throno, firme, na Europa, para o senhor de tão vastos dominios: levantei-o! És noivo da princeza Izabel de Hespanha, n`um ano será tua mulher: serás rei da Hespanha! (D. Affonso beija-lhe a mão). Não m`o agradeças, tu és o meu filho muito amado, a minha esperança, a minha vida! Quando era de pouco mais da tua idade vi como um filho de um rei póde cair em servo de seus vassallos. Teu avô, meu pae, era o melhor homem do mundo, generoso e valente.E, como era bom, de mais, tudo lhe pediam e tudo dava. Quando subi ao throno o fidalgo mais pobe de Portuagl era eu! Os fidalgos abarrotavam de bens e poderio.Quem era o rei? E que rei póde ser o homem inferior na força e na riqueza aos seus subditos? Então tu vinhas sentar-se no meu collo, e foi beijando a tua cabeça querida que eu senti que tinha o dever de lhe arranjar uma corôa mais valiosa do que ados meus beijos! Para ser rei de vastos dominios é preciso começar por sêl-o em casa. Disse-lh`o, revoltaram-se! Para os dominar foi preciso o cutelo, trabalhou o cutelo: foi preciso o punhal, brandi-o eu mesmo! O poder tive de o crear e tomar por minhas mãos, como Affonso Henriques, tomando a espada e a côroa de sobre o altar! De um principado ridiculo fiz um reino: hei de transformal-o n`um imperio e dar-t`o!
D Affonso- Como sois bom! Como estaes contente e, como eu gosto de vos ver feliz. Que o sois, hoje?
D. João II - Quasi. Tenho um reino, poderoso, respeitado e rico. Esse reino ámanhã será a Hespanha inteira! Bartholomeu acaba de dobrar a Africa, e põe-nos no caminho d`essas fabulosas India, cheias de riquezas e de maravilhas! É têl-as, um dia e veás virem a esse Tejo os embaixadores de todos os senhores da Europa pedir alianças e amizades. Se  nenhum reino nos iguala, já hoje, nas forças do mar, eu te afirmo que coalharei esses mares de naus, com a cruz de Christo, nas vélas.
D. Affonso - E o que farei de tanto poder?
D. João II - O teu presente de nupcias. Quero que me digam: quem é este teu poderoso senhor, ante quem a Europa treme? O imperador, Affonso, senhor de todas as Hespanhas...
D. Affonso - Filho do Rei João...
(Abraçam-se)
D. João II - Desabafei. Que vamos fazer?
D. Affonso - Se fossemos n`um passeio até ao Restello... viamos as naus...
D. João II - E entravamos na Capella a agradecer á Virgem.
D. Affonso - Vamos em mula? (Toca o timbre)
D. João II - Vae como quizeres. Eu vou de mula.
D. Affonso - Irei a cavallo. (Ao credo que apparece). Apparelhem a mula de El-Rei e o meu cavallo alazão. (O creado sae). Vou beijar a rainha. Até já?
D. João II - Até já. (Daffonso sae) Decididamente, Deus começa a inclinar a sua vista para mm! (Fica-se a contemplar o Tejo.)

          Acto Segundo
Quadro Quarto
Salão no paço de D. Manuel (não é o da Ribeira). Os fidalgos esperam o Rei. De um lado um grupo de navegadores; do outro, os cortezãos.

João Infante - Sabeis, sr. Bartholomeu Dias, da escolha de El-Rei?
Bartholomeu Dias - Já sei.
João Infante - Não sois vós que ireis em capitão mór.
Bartholomeu Dias - Pois de outro modo eu vos aseguro que não irei.
João Infante - Heis de permitir-me que a não ir sob as vossas ordens eu me recuse, também.
Bartholomeu Dias - Não receaes o desagrado de El-rei D. Manuel?
João Infante - Não sou do seu agrado; nem vós. Perdoe-me a vossa bondade; no vosso caso eu teria dispensado a honra, de dirigir a fábrica das naus, para outro comandar.
Bartholomeu Dias - Foi cargo d`El Rei D. João, que Deus tenha em gloria. Cumpri-o.
João da Nova, chegando - Disseram-me que não ereis vós, sr. Bartholomeu Dias, quem commanda a esquadra?
João Infante - Está feita a escolha. Decidiu-se hontem emquanto E-Rei jantava.
Diogo de Azambuja - E quem é?
João Infante - Vasco da Gama, o filho segundo do alcaide mór de Sines. Hontem, no mosteiro de Belem, passou, com o judeu Zacuto, largas horas de lição sobre cousas do mar; sobre a viagem.
Pedro Cabral - E o que fazeis sr. Bartholomeu?
Bartholomeu Dias - O que devo. Esperar. Obedecer, se a obediencia não for contra os direitos a que tenho jus. El-Rei é livre de escolher quem quizer para o servir.
João Infante - Sem esquecer os serviços...
Bartholomeu Dias - A isso estamos condemnados, todos nós que fomos os amigos de D. João II. Está acontecendo aos fidalgos que foram da sua côrte quanto mais a nós. Seremos banidos. Os expulsos, os expatriados, readmittidos e reintegrados em seus bens e titulos hão de perseguir os que foram da confiança do «algoz»! Ha muito que o vejo e sinto. Mas agora os olhos podem ver e os ouvidos ouvir, que a lingua deve ser muda. O Rei é novo, quer-se com os novos; rapazes com rapazes. (Fica pensativo)
Pedro Cabral - Em que pensaes?
Bartholomeu Dias - No meu grande Rei que é morto! Esse sim que era um homem. Não quiz Deus que elle visse o fructo completo do seu trabalho; que foi tanto! Que de noites o vi com os mestres judeus, com artholomeu Dias - Dizeis, sonho? Sim, sonho para elle que o não viu realisado. Outros lhe verão a realidade. Em breve...
Pedro Cabral - Em breve? assim o acreditaes?
Bartholomeu Dias - Agora, a empresa é, relativamente, facil. O caminho está marcado até Calicut.
João da Nova - Marcado?
Bartholomeu Dias - Na carta de Pero da Covilhã a El-Rei D.João II... 
João Infante - Pero da Covilhã escreveu? E Affonso de Paiva?
Bartholomeu Dias - Esse morreu. Pero da Covilhã foi para a Abyssinia depois de correr a India, ir a Ceylão, à ilha da Lua, e na costa de Africa a Sofala.
Pedro Cabral - É na costa oriental onde estivestes?
Bartholomeu Dias - A mesma.
Diogo de Azambuja - E que diz?
Bartholomeu Dias - O bastante para decidir El-Rei a mandar, já, a esquadra. Diz isto: «Quem na Cosa Oriental da Africa estiver em Sofala e velejar a leste vai Ter a Calicut». Quereis alguma cousa mais clara?
Pedro Cabral - De sorte que se tendes subido...
Bartholomeu Dias - Teria encontrado, talvez, Pero da Covilhã. Teria ido a Calicut onde elle esteve, e teria trazido a El-Rei D.João... o seu sonhado imperio.
 (Ao grupo dos fidalgos chega D.Jayme, duque de Bragança)
1º Fidalgo - Deus vos salve sr.Duque. Vindes de estar com El-Rei?
D.Jayme - Venho da sua guarda-roupa.
2º Fidalgo - Decidiu-se a viagem à India;
D.Jayme - Inda não.
2º Fidalgo - Inda não?
D. Jayme - Para isso nos reune hoje El-Rei. Quer a opinião e o conselho de todos.
1º Fidalgo - Mas far-se-ha?
D.Jayme - Sem duvida.
D.Ruy de Menezes - Vae começar o novo reinado dos marinheiros. Vamos Ter de novo a nobreza de barrete de pelles e gibões de oleado.
D.Jayme - Onde está o mal?
D. Ruy de Menezes - Onde está o mal? A velha nobreza...
D. Jayme - Que os siga.
1º Fidalgo - Temos a Africa.
D. Jayme - É, já, pouco...
2º Fidalgo - Hão de querer fazer valer seus privilegios. El-Rei D. João não foi avaro, só para elles!
D.Jayme - Premiou serviços.
1º Fidalgo - Porque, vós que sois íntimo de EL-Rei, o não aconselhaes a que nos dê os cargos que açambarcaram?
2º Fidalgo - E que são rendosos.
D.Jayme - Porque El-Rei escolhe quem bem lhe parece, sem preoccupação de classe. Vêde a escolha para capitão mór da esquadra.
D.Ruy de Menezes - Não é Bartholomeu Dias?
D. Jayme - Não.
1º Fidalgo - Nem João Infante?
D.Jayme - É Vasco da Gama.
1º Fidalgo - O filho do alcaide mór de Sines?
D.Jayme - Esse mesmo.
2º Fidalgo - É já melhor; mas a nobreza pouco tem, ainda, ahi, que ver.
D.Jayme - Sois difficeis de contentar. A escolha é de El-Rei, vem ahi e vae pedir-vos conselho.
 (Entra D. Manuel e toma assento com o sequito)

D.Manuel - Reuni-vos para que me concedaes o favor dos vossos conselhos sobre minha resolução de mandar pela India a esquadra que está presstes. Esta empreza, que foi a ambição e o trabalho de toda a vida de El-Rei D.João II, me parece Ter cehgado ao tempo de se conseguir. El-Rei meu tio, me deixou aplanadas as maiores difficuldades. A esquadra é prompta, as informações de Pero da Covilhã e o conselho de nossos astrologos e mathematicos leva-me a pensar determinado o caminho da maravilhosa terra que Colon descobriu, em serviço do rei de Hespanha. Tantos trabalhos passados, tantas luctas, não é justo que fiquem esquecidas. Desejarei apoiar a minha resolução nos vossos conselhos. Dae-me as vossas opiniões.
D.Luiz da Silva - A empreza é digna de vós, Senhor, dos bravos capitães que vos escutam, a cujo esforço de seve a conquista do mar e a passagem do temeroso cabo que marca, no Atlantico do sul, o fim da terra! Chegar à India é um sonho de gloria: conquistal-a antepõe-se-me como louca aventura.
D.Manuel - Encontral-a para vêl-a, apenas, seria um pueril empenho.
D.Luiz da Silva - Digo conquista, por dominio commercial. O desejo da riqueza é profundamente humano; mas é preciso contêl-o... riqueza, o oiro: pois olhae que não vamos perder-nos na miragem!

 

Continuação no próximo número

publicado por promover e dignificar às 11:26

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