Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

Pagina 14

UMA OLARIA PARA FABRICO
 DE BEBÉS


   O mestre Tareco Vinhas vivia em Alcáçovas e via regularmente a Roda dos Milhões na televisão. Um dia, inspirado por uns copitos do vinho tinto que produzia, foi assistir ao concurso  convicto de trazer de lá muito dinheiro. Foi ter com o apresentador Gabriolas, a quem, numa incontida inconfidência, expôs as ideias já amadurecidas na sua mente, uma espécie de computador programado pelos sonhos que tinha depois de dormir uma boa soneca, mas já acordado. Queria ganhar muito dinheiro para  levar de trás  para a frente a concretização dos seus projectos
.
   Chegado ali encontrou-se com o Gabriolas e a conversa  começou a desenrolar-se, embora um pouco enrolada pelo segredo  que não desejava revelar, que sabia ser a "alma do negócio".
   Tareco Vinhas:
- O Gabriolas é o dono deste concurso?
Gabriolas:
- Não sou dono, mas sou eu que ponho e exponho.
Tareco Vinhas:
- Ouvi dizer que aqui há uma roda dos milhões... É verdade?
- Sim, é verdade e damos muito dinheiro! Até 100.000 euros - respondeu o Gabriolas.
Tentando impressionar persuasivamente, o Tareco Vinhas começou por revelar-se sem se deixar enrolar, dizendo:
- Só 100.000 euros? Sabe, eu sou bastante pobrezinho e queria comprar as herdades que estão à venda. Não é para ficar rico; é só para não serem abarbatadas pelos espanhois... Mas 100.000 euros não chegam. Não pode aumentar qualquer coisita?
- Aqui há regras a cumprir e não podemos dar mais dinheiro - responde o Gabriolas.
- Eu também tenho uns tostões lá em casa, mas receio que ainda falte algum. Você tem ares de boa pessoa. Não é capaz de me emprestar algum? Eu até era capaz de lhe emprestar algum terreno para você cavar  e semear o que quiser...
Responde o Gabriolas, com toda a determinação:
- Livra, eu se lá estivesse cavava de lá! Também não lhe posso emprestar dinheiro. Posso parecer uma pessoa rica, mas contento-me em ser uma rica pessoa...
Mudando de conversa, diz o Tareco Vinhas:
- Vendo bem as coisas e as lousas, comprar as herdades não é o que mais quero. As herdades era só para despistar. O que eu quero mesmo  é ser dono de uma fábrica de bebés...
- Uma fábrica de bebés? Isso é assim tão fácil? - responde intrigado o Gabriolas.
- Claro, basta montar uma boa olaria - revela o Tareco Vinhas.
- Uma olaria? - responde o Gabriolas cheio de curiosidade.
- Olarila! - responde o Tareco Vinhas.
- Se quer que eu acredite, tem de me explicar melhor  - resposta firme do Gabriolas.
O Tareco Vinhas, procurando tornar-se convincente:
- Quando Vossa Alteza souber que o Adão e a tal Eva foram feitos do barro, já vai acreditar. Vai ser uma revolução, eu vou fazer nascer um novo mundo....
Gabriolas:
- Mas quem é você para ter poderes de Deus para dar vida a um boneco de barro? De onde lhe veio tal ideia?...
Segredando baixinho, adianta o Tareco Vinhas:
- Eu vou contar-lhe tudo, mas tem de guardar segredo! E prosseguindo:
- Estava eu a beber um copito de 3 x 3  na tasquinha do meu compadre Inocêncio, quando entrou a Dª. Miquelina.  Ela é uma mulher de ginjeira que bebe muita ginja. Já se casou mais de 10 vezes  e nunca teve nenhum filho. Ela acusou ali mesmo todos os maridos  de serem uns impotentes incompetentes, por nenhum deles ser capaz de lhe fazer um filho. Ficou lá num canto a palrar com uns folanos com cara de muita ginja, e a certa altura descoseu-se com esta:
- Eu era capaz de dar todo o dinheiro do mundo a um homem que fosse capaz de me dar um filho...
E o Tareco Vinhas prosseguiu:
- Não é por me gabar, mas tenho alguns dotes de inteligência.  O que me vale é ser esperto! De tal modo que descobri logo  estar ali um grande negócio. Eu posso arranjar muito dinheiro! Ter bons ganhos por esse mundo fora... Até pode ser que venha algum dos arredores: de Badajoz, de Malta, da Lourinhã e até de Paris - a terra das cegonhas...
-  Ainda não sei onde quer chegar - responde o Gabriolas.
E o Tareco Vinhas prossegue:
- Saí dali e fui logo a uma livraria comprar  um livro sobre olaria. Nem de propósito, estava lá um com 3 bebés na capa. Mas eram muito imperfeitos. Um trabalho mal acabado, talvez feito por quem já tinha bebido ginja a mais e não media a responsabilidade de fazer um trabalho perfeito. Figuras de principes e princesas, por exemplo. Um tinha bochechas a mais, outro parecia ter a boca cheia de papa, esticada para um dos lados, e o outro tinha os pés chatos e descalços, e ainda as pernas tortas. Lembra-se do Garrincha?... Até fiquei a pensar que podia ser ele mesmo - o Garrincha do futebol...
E prosseguindo:
- Além disso, eu apercebi-me logo de que o barro tinha sido mal amassado. Falta de prática ou de jeito!... Agora vou dizer-lhe uma coisa importante: já descobri um barro especial. Um barro cheio de vida, fabricado por umas formigas a quem chamam cantáridas. Com este nome fiquei persuadido de que cantam. Ainda não sei bem se cantam, porque algumas morderam-me e tive de cavar dali. Mas é mesmo possível que cantem. Hoje em dia vê-se tanta coisa esquisita!...
Todo convicto, o Tareco Vinhas prosseguiu:
- Mas com este barro, quem cá canta são os bebés. Os homens e as mulheres que nunca tiveram filhos compram-me o barro. Com ele fazem uma valente sopa, aconchegam-se e aprochegam-se, amassam-se bem amassadinhos com uns truques que eu cá sei, e passados 10 meses aparecem os bebés, lindos e alegres!...
- O Gabriolas ficou mais curioso, dizendo:
- Esta conversa já me está a interessar mais. Não é que queira ter filhos desse barro, mas gostava de ficar a saber até que ponto posso amassar mais barro... Mas há aqui uma coisa em que você está a falhar!... Os bebés nascem ao fim de 9 meses, e não de 10...
Fez-se uma pausa e o Tareco Vinhas, depois de meditar e inspirando-se, responde:
- Você acha que eu não pensei em tudo?... São 10 meses, sim, porque os oleiros têm de fazer a digestão. Um barro daquela qualidade  deixa-os empantorrados... Levam um mês a digeri-lo....
Aqui abriu a boca o Gabriolas, dizendo:
- Ainda não estou muito convencido, embora esteja interessado na sopa desse barro. Não quero estar a duvidar, mas só acredito  quando vir o primeiro bebé nascido desse processo olarico, ou olarila, ou lá o que é que você anda para aí a engendrar...
E o Tareco Vinhas, apercebendo-se da ingenuidade do Gabriolas, perguntou-lhe:
- Por acaso, ou ao acaso, você sabe como se fazem os bebés? Sabe?...
Resposta do Gabriolas:
- Já tenho umas luzinhas, dessa forma é que não! Pelos vistos, você inspirou-se no nascimento de Adão e Eva...
Resposta pronta do Tareco Vinhas:
- Sim, mas os tempos são outros. O meu barro é melhor e o processo é mais evoluído. No tempo do Adão, os bebés nem sequer tinham a roupa à sua espera quando nasciam...
No entanto, procurando saber algo mais, pergunta o Tareco Vinhas:
- A despropósito!: Você sabe dizer-me se o Adão e a Eva foram os primeiros banhistas da praia do Meco?..
O Gabriolas ficou sem resposta, apenas dizendo:
- Um apresentador está sujeito a cada resposta mais difícil....
A conversa estava interessante, mas chegou a hora do início do concurso, ficando adiada para mais tarde. Mas sem que o Gabriolas deixasse de pensar na sopa de barro das cantáridas...
 

CONTOS ALEGRES FRANCESES
O Coronel Batalha acabara de almoçar. O impedido entregou-lhe um telegrama.O coronel leu:
"Em vista de se realizarem brevemente as grandes manobras, no próximo Sábado, às três horas, irei passar revista ao vosso regimento."
                           
Barreto Guerra (Brigadeiro)
Imediatamente o coronel Batalha mandou chamar os 4 comandantes do 119 de Infantaria.
- Meus senhores, - explicou o coronel - acabo de receber neste instante um telegrama do nosso brigadeiro Barreto Guerra. Vem passar revista ao regimento, no sabado...no próximo sabado às...às...
O coronel hesitou um momento. "Eu estou em excelentes relações com obrigadeiro - pensava - É evidente que, se ele quiser, pode ajudar-me na minha promoção. Tenho que preparar tudo para que só mereça elogios. Ora, eu sei o que são estes oficiaizinhos mandriões...São capazes de não ter tudo preparado à hora marcada..."
- Sim...dizia eu - continuou ele - que o nosso brigadeiro vem passar revista ao nosso regimento, sabado..sabado ao meio dia. É preciso que a essa hora os vossos 4 batalhões estejam formados na parada do quartel.
Apressadamente retiraram os 4 comandantes do batalhão, e logo cada um deles mandou chamar os quatro capitães das Companhias.
- Meus senhores - declara cada um dos majores aos seus subordinados - o nosso coronel acaba de nos chamar para prevenir que o novo brigadeiro vem passar revista no próximo sabado às...às...
Cada um dos majores hesitou um momento: "O comandante tem optimas impressoes a meu respeito. Se ele quiser pode dar boas informações a meu respeito...
- Bem...então, já sabem - continuou o comandante do batalhão - o nosso comandante vem cá sabado às 8 da manhã. É preciso que as vossas companhias estejam formadas a essa hora em impecável asseio e ordem, na parada do quartel.
Em grande velocidade, os 16 capitães foram para os seus respectivos aquartelamentos. Cada um mandou chamar os alferes e tenentes, comandantes de pelotões, e disseram-lhes:
- Meus senhores o nosso major preveniu-me agora que o nosso brigadeiro vem passar revista ao regimento Sabado às...Quero dizer, Sexta feira! Sexta às 4 da tarde. A essa hora devem os vossos pelotões estar devidamente uniformizados e em formatura na parada do quartel.
E foi por isto que no Sabado, o brigadeiro Barreto Guerra, chegado ao quartel do 199 de infantaria, com duas horas de atraso se fartou de praguejar, enquanto passava revista às tropas que estavam formadas na parada do quartel havia 1 dia, ao sol e à chuva, com as armas e os equipamentos às costas, e ofereciam o aspecto dos granadeiros de Napoleão na retirada da campanha da Rússia:
- Mas que tropa fandanga! Com mil raios! É uma vergonha! Parecem maltrapilhos! Não tenho outro remédio senão comunicar já ao Ministro o estado de desleixo dos seus homens coronel! Que falta de aprumo militar, francamente!

publicado por promover e dignificar às 12:32

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