Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

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O SONHO DA INDIA

 

.Manuel - Deixaremos à Hespanha...
D.Luiz da Silva - Toda a liberdade de acção; as vantagens que houver e as desfeitas. A posse do commercio do Oriente fará nossos inimigos todos os principes mussulmanos e todas as republicas da Italia.
D.Manuel - São, acaso, nossos amigos?
D. Luiz da Silva - Mas não nos guerreiam ostensivamente. Se os formos incommodar nos seus negocios, tocar nos seus interesses, não nos faltará a guerra no mar como a temos em terras de Africa todos os dias. Somos pequenos de mais para tantas luctas. Onde temos homens, onde recursos para este sumir de vidas e fazendas? Temos a Africa inteira para conquistar: o mouro ao pé da porta. Para que buscar, tão longe, damnos e perigos só pelo prazer da aventura? Fascina-nos a riqueza, o oiro: pois olhae que não vamos perder-nos na miragem!
D.Manuel - Desculpam-vos a idade os sonhados terrores. Não serão da vossa opinião os capitães que vos ouvem.
João Infante - Não meu Senhor. Que considerações valem a perda de trabalhos há quasi um seculo? Agora que o grande Bartholomeu Dias dobrou o Cabo, que a rota de Calicut está traçada no mappa, agora parar? Porque vamos crear inimigos? Os nossos marinheiros não desdizem dos nossos soldados da Africa. Porque iremos enriquecer? Ainda bem porque bem o precisâmos. A Hespanha ao nosso lado e quereis ficar parados? Se não caminharmos a seu par, não vêdes o perigo de sermos absorvidos? Parar! Seria uma loucura, seria um crime!
Bartholomeu Dias - Daes licença, Senhor?
D. Manuel - Fallae, Bartholomeu dIas.
Bartholomeu Dias - Dividamos as nossas actividades. Que os fildagos conquistem a Africa, e deixem-nos a nós o mar e as suas costas. Trabalhe cada qual como puder na grandeza da nossa terra. Que mais conseguir maior louvor merece! Veremos a quem cabe a glória.
1º Fidalgo - É esse orgulho que é preciso para não sacrificar rendas e vidas!
Bartholomeu Dias - Nem ao despeito os sacrificios passados! Abençoado com orgulho onde não há vaidades nem se pedem premios, mas trabalhos. É que seja premiado quem trabalha é justo: o premio do ocioso é uma iniquidade.
2º Fidalgo - Ninguém quer senão o que lhe pertença por seus velhos direitos e regalias.
Bartholomeu Dias - Preza a Deus que assim seja, sempre; que se o não for, não serei eu que haja de dar contas pela justiça ou injustiça d`este reino.
D. Manuel - Isso é commigo, Bartholomeu Dias. E por querer ser justo que me quero fundar em vossa prudencia e razão. Na de vós todos.
Bartholomeu Dias - Por isso assim vos fallo Senhor. Não há que pensar sequer, se deve ou não tentar-se a viagem: é mandal-a!
D. Luiz da Silva - A prudencia chama-se, muita vez, receio.
Bartholomeu Dias - Não será; mas é preciso temperal-a, porque póde parecer inveja, ou cobardia.
D. Jayme - Fallaes como despeitado ou como irreflectido.
Bartholomeu Dias - Fallo como homem a quem El-Rei D. João, que Deus tem, chamava seu amigo. Sou portuguez....
Vozes - E, nós outros?
Bartholomeu Dias - Quem duvida que o sejaes? Por ventura vos neguei o titulo? Porque vos comprazeis a contrariar-nos as glorias, se vós recebeis as vantagens? O que justifica que alguem pense em deixar apodrecer, no Tejo, navios apparelhados para irem a Calicut? Para que se fizeram de pregaria dobrada, da melhor madeira, para que se encheram de artilheria e machinas de guerra? Dir-se-ha que collocaes o vosso orgulho acima do bem da patria! Tendes ciumes de nós.
Vozes - Ciumes de vós?
Bartholomeu Dias - Pois tendes, e perdoae que vol-o diga. Somos os marinheiros de El-Rei D. João, esses de quem por chasco dizeis que era o rei, quando nobilitava os Fernandes e os Gomes que lhes davam reinos!
1º Fidalgo - Quem o dizia?
Bartholomeu Dias - Todos. Nós somos mais generosos que vós. Que El-Rei mande, e cedemo-vos os nossos logares.
D. Jayme - Compreende-se que estaes costumado a fallar em senhor, na vossa nau.
Bartholomeu Dias - Perdão, sr. Duque. Isto é um tribunal de que El-Rei é juiz: defendo-me.
D. Manuel - Não precisaes; que sois um bravo e leal marinheiro: mas exageraes o vosso melindre e excedei-vos!
Bartholomeu Dias - Pois perdoae, meu Senhor, se me excedi; defeito de quem não sabe luctar, em segredo.
D. Manuel - Assentemos porém. Sois pois de opinião que se parta?
Bartholomeu Dias - Immediatamente.
D. Manuel - Diogo Cão, João Infante, Diogo de Azambuja...
Vozes - Todos vós, Senhor.
D. Manuel - E as vossas opiniões tem grande peso, porque sois homens do mar e conheceis o assumpto. (Aos fidalgos) Vós approvaes tambem, senhores?
Vozes - Sim, meu Senhor.
D. Manuel - Daes força á minha vontade e intenção. A armada está prompta e partirá...em dias. São tres as naus. Escolhi para capitão mór a Vasco da Gama, e sob as suas ordens Paulo da Gama e Nicolau Coelho...
Vasco da Gama - Meu Senhor, renovo o pedido de que deis a meu irmão o commando...
D. Manuel - sois o escolhido. Providenciae com a maior urgencia no provimento das naus.
Vasco da Gama - Cumprirei as vossas ordens, Senhor. (O rei levanta-se e sae. Os fidalgos cercam Vasco da Gama).
1º Fidalgo - Parabens, capitão mór.
Vasco da gama - Obrigado.
2º Fidalgo - Vois sois dos nossos, não nos deixeis ficar mal.
D. Luiz da Silva - É preciso dar uma lição a esses marinheiros.
1º Fidalgo - Porque a merecem.
Vasco da Gama - Respeito-os muito; mas se me virdes voltar acreditae que lh`a dei. Sob a minha palavra vos asseguro que ou volto - da India - ou não volto! (Vão a sair)

O Panno desce
Quadro Quinto
A praia do Restello. Vêem-se ao fundo naus e barcos. Na praia, grupos de mulheres sentadas, olham e choram. Ouvem-se vozes no mar, chamando. Movimentos de embarque. Passam marinheiros, homens carregados, etc.
Tia Anna - Adeus, João; adeus, filho!
João da Ameixoeira - Adeus, mãe! Não chores! Deus ha-de ir commigo.
Tia Anna - Já te não vejo mais!
João da Ameixoeira - Pede á Senhora da Nazareth, que ela ha de fazer que eu volte...  e rico.
Tia Anna - Rico!
João da Ameixoeira - Rico, sim; para a nossa pobreza. Não ficas tu já rica?Os cem cruzados, que El- Rei nos deu chegam-te bem para viveres, socegada, na nossa choupana, enquanto eu por lá andar. Com o juntar da viagem á volta, arranjaremos um barco...e nunca mais precisarei de embarcar...senão lá na nossa costa...pois essa conheço eu como a palma de mão, louvado Deus.
Tia Anna - Se as minhas orações te podem valer, não terás damno.
João da Ameixoeira - Pois hão de valer; não chores mais...e adeus!
Tia Anna - Não percas, nem tires nunca do pescoço o santo lenho. Levou-o teu pae à Guiné, com elle voltou, e elle fará que voltes.
João da Ameixoeira levando a mão ao peito - Está aqui, e ha de fazer o milagre.
Vozes - Ao mar! Vá, embarcar!
Tia Anna - Adeus, filho. (Abraçam-se. Anna chora alto. João sae).
Tia Brites - Ai! Tia Anna, lá se vae  seu filho?
Tia Anna - Que Nosso Senhor vá com elle. O que se lhe ha de fazer?
Tia Brites - É verdade. Quem é pobre!...Lá se vae meu marido, tambem!
Tia Anna - Ainda se o Senhor quizer que voltem bons! (No meio de uma força de archeiros ou de alabardeiros, quatro homens algemados, seguidos de mulheres chorando e do rapazio, apparecem).
Vozes - Os condemnados!
Tia Brites - Olhae, olhae, que desgraçadinhos!
Um Capitão de Archeiros - Alto. (A um archeiro). Ide ver se o barco ahi está, e se não chamae-o.
Tia Anna - Quem são?
Tia Brites - Os condemnados á morte.
Tia Anna - O que vão fazer?
Tia Brites - Manda-os El-Rei, nas naus, para serem deixados por essas terras fora!
Tia Anna - Credo. (Persignando-se). Que sina!
1º Garoto, a um preso - Eh! Thomé da Povoa, vê se por lá topas igrejas que roubar e te mandam para cá. (Risos)
2º Garoto - Aquelle não é o Manuel de Alfama?
1º Garoto - O que matou o clerigo?
2º Garoto - É elle, é.
1º Garoto - Que bela sociedade que vae para a India!
2º Garoto - Mandem novas, hein?
Um capitão de Archeiros - Arreda, ao largo.
O Archeiro chegando - Está a atracar o barco.
Um capitão de Archeiros - Sentido. Marcha. (A força põe-se em marcha; as mulheres despedem-se com gritos).
Tia Brites - Olha, tia Anna...os nossos a acenar! Vamos ali, vamos ali. (Saem acenando os lenços. Entra Pero de Alemquer com marujos)
Pero Alemquer - É aviar, rapazes; o oficio acabou, El-Rei não tarda ahi mais os capitães.
Mestre Diogo - Eh! Pero de Alemquer, acertarás com a India d`esta vez?
Pero de Alemquer - Espero em Deus.
Mestre Diogo - Que elle te leve e que voltes, rico!
Pero de Alemquer - E se não voltar? O caso é achal-a. Não se dirá que os marinheiros de Castella valem mais do que nós, nem que os pilotos do excommungado genovez têem mais lume no olho. Para as naus, gentes, para as naus! Os abraços para a volta! (Desfazem-se grupos: há abraços e lagrimas; marujos com troxas saem )É como vos dizia, mestre Diogo, o que é preciso é achal-a, custe o que custar. Lá pelo capitão mór já eu vou. Nestes tres dias de apparelhar tem mostrado que é homem para o trabalho.
Mestre Diogo - Melhor que Bartholomeu Dias?
Pero de Alemquer - Em saber? Não. Que n´isso e em coragem nehum o iguala,. Mas bom de coração...de mais. Este é homem de vontade e mando. Que El-Rei D. João, que Deus tenha, já se tinha lembrao d`elle,e homem que aquelle dedo apontasse...era um homem.
Mestre Diogo - Que assim seja.
Pero de Alemquer - Pois até à volta, mestre Diogo, e oxalá que as vossas pipas não nos larguem o vinho, d `esta vez como na passada.
Mestre Diogo - Será difficil; que vão abraçadas com duas ordens de arcos de bom ferro. Bem acauteladas...que tudo assim vae nas naus.
 Pero de Alemquer - Como nunca! E olhae que naus! Que galhardas, hein? Da melhor madeira que tinhamos. Levam pregaria dobrada e tudo o mais à proporção... (Passa Pero Dias) Sr. Pero Dias, daes-me um logar no vosso barco?
Pero Dias - Olá, Pero, às ordens; mas depressa que o barco tem de voltar pelo Bartholomeu.
Mestre Diogo - O capitão Bartholomeu tambem vae?
Pero de Alemquer - Vae, na Berrio; mas vae á costa da Mina, ao resgate do oiro. Até à volta.
Mestre Diogo - Adeus, Pero; boa viagem.
Pero Alemquer - Sr. Pero Dias...
Pero Dias para o mar - Eh! João do Cartaxo, atraca.
Pero de Alemquer - Olhae, que não acabam as despedidas. ..Chegam os capitães e tudo em terra! Vá aviar. (Movimentos de partida. Saem os dois)
(Chegam Fernão Velloso e Leonardo Ribeiro)
Fernão Velloso - Esperâmos pelo Rei, Leonardo?
Leonardo Ribeiro - Como quizeres, amigo Velloso. (A um creado que traz uma trouxa e uma guitarra).Pousa ahi, isso, um instante.
Fernão Velloso - Agora reparo; levas a guitarra?
Leonardo Ribeiro - Poderá!
Fernão Velloso - Vaes dar serenatas, na India?
Leonardo Ribeiro - Se for preciso.
Fernão Velloso - E se lá não se usar?
Leonardo Ribeiro - Metto eu o uso.
Fernando Velloso - Acho melhor ir preparado para dar cutiladas!

publicado por promover e dignificar às 13:37

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