Terça-feira, 3 de Junho de 2008

Pagina 2

O SONHO DA INDIA

 

 

 

Peça teatral de 1898, preciosidade rara escondida nos escaparates

 

Leonardo Ribeiro - Tudo tem o seu logar, senhor mata-mouros! A espada para os homens e a guitarra para as mulheres. Tu imaginas que eu vou à India, só com a mira de enriquecer?
Fernão Velloso - Julgava. Ninguem lá vae por outra cousa. Eu cá...
Leonardo Ribeiro - Pois enganas-te.
Fernão Velloso - Pensava que precisavas de um pouco de oiro, para enterneceres aquelle marcador da Rua Nova...
Leonardo Ribeiro - O pae da Leonor?... Deixa-me que isso é um judeu...
Fernão Velloso - Se fosse commigo...
Leonardo Ribeiro - Matava-l`o?Eu logo vi. Mas com esse processo vaes despovoar a India de homens...(rindo).
Fernão Velloso, rindo - Despovoâmos...tu trazes as mulheres...
Maria Parda - Deus vos salve, fidalgos.
Leonardo Ribeiro - Olha a Maria Parda! Também embarcas?
Maria Parda - Deus me livre. Isto de viajar, por mar, mette muita agua; e eu lá de agua...arreneguei.
Fernão Velloso - Que vens cá fazer?
Maria Parda - Ver a partida, e dizer adeus ao filho do João do Lumiar.
Leonardo Ribeiro - Quem é esse?
Maria Parda - O taberneiro da Mouraria...
Leonardo Ribeiro - Um que tinha uma filha...
Maria Parda - Esse é. Como vos lembraes!... Pois o filho prometeu-me meia canada de vinho, na despedida. Venho por ella...que não vá elle embarcar...que se não lh`a apanho á ida...(olhando os lados)á volta, não é lá muito certa!
Fernão Velloso - Então vê se o vês. (Risos)
Maria Parda - Vou ver, vou. Com licença de vossas senhorias e boa viagem! (corteja e sae)
(ouvem-se repiques de sinos e um ruído ao longe)
Fernão Velloso - El-Rei sae da capella. Toca a embarcar.
Leonardo, olhando para um par de namorados que passa abraçado - Olha aquelle par!
Fernão Velloso - Que tem?
Leonardo Ribeiro - Pobre rapariga. Olha como é bonita, a chorar!
Fernão Velloso - Deixa-te d´isso, agora. Já não há tempo.
(o par desapparece.  Ruído aumenta. Ouvem-se canticos)
Vozes - El-Rei!El-Rei!
(Ouvem-se toques de cornetas. O cotrejo apparece.El-Rei á frente de capitães. Precedem-n`o arautos, passavantes, reis de armas, etc. Sob o pallio, o Bispo de euta, leresia, frades, com tochas accesas; cercados pelo povo)
Um official, a um marinheiro - Fazei aproximar o bergantim. ( O marinheiro sae correndo. O cortejo pára).
D. Manuel - ...Todos os meus esforços puz em que nada vos falte. Resta que Deus vos ajude, agora!
Vasco da Gama - Ajudará, que por signal levâmos a cruz de Christo, e em sua maior Glória trabalharemos.
(o marinheiro volta; falta ao official)
Um official, a Vasco da Gama - Podeis embarcar.
Vasco da Gama - Senhor (ao Rei) espero as vossas ordens.
D. Manuel - Capitães e amigos. Eu vos digo que é este, para mim um momento solmne!Ides, pela nossa terra e por mim lançar-vos  nos perigos de novos mares, affrontar longos trabalhos, arriscar as vidas! Mais uma vez, ireis procurar, por mares estranhos, essas Indias maravilhosas, que se esconderam das nossas caravellas e evitam as proas das nossas naus! Não se encontrou o seu caminho, até hoje: pois é preciso, absolutamente, determinal-o agora! Vae n`isso a nossa fama de marinheiros, e a posse de uma opulencia. Precisa para sustentar o predominio dos mares! De mais, rejeitámos o offerecimento de Christovam Colombo, temos de provar que se o feliz Genovez se não enganou, também tinham razão os nossos astrologos e mathemáticos! Vede o valor de tal viagem! Pelo vosso, estou tranquillo! Pela vossa coragem, capitães, arriscaria, se fosse mister, o meu spectro e a minha corôa! Mas sobre nós, em cima dirigindo nossos destinos, Deus manda. Acabámos de invocar, de dentro do coração, com a promessa de dilatar os dominios da sua fé! A elle vos encomendae, sempre! Que elle nos tenha ouvido e vos acopanhe em vossos trabalhos e perigos! Lvaes convosco a glória de um rei e a felicidade de um povo! Que um feliz vento enfune as vossas vélas! E que volteis credores da minha gratidão, do reconhecimento da pátria e da admiração do mundo! Bravos capitães, podeis patrir. (Os capitães, inclinando-se beijam a mão ao Rei, e despedindo-se de outros, vão saino.à maneira por que se despedem o Rei repete: Boa viagem, boa viagem! - Sairam todos. Há um momento de espera. O Rei está no primeiro plano, um pouco atrás fidalgos e o judeu Zacuto, astrólogo. Vê-se movimento nas naus) Mestre astrólogo acreditaes que esta é a viagem da India?
Mestre Zacuto - Esta é, Senhor. Assim vol-o prophesitei, e aempenho a minha cabeça em tal abono.
D. Manuel - assim o lestes?
Mestre Zacuto - No céu!
(N´este momento apparece o bergantim real com os capitães e Vasco da Gama á frente. Sairam os navios todos. O povo grita; agitam-se lenços. El-Rei saúda. Os navegadores descobrem-se, ao passar)

O PANNO DESCE

 

 

Quadro Sexto
Uma camara na nau S. Gabriel

Vasco da Gama descendo para a camara, seguido de Gonçalo Pires; excitado - Tendes entendido o que quis dizer Nicolau Coelho de bordo da sua nau?
Gonçalo Pires - Agora?
Vasco da Gama - Agora em sua falla?
Gonçalo Pires - Não o ouvi, claramente.
Vasco da Gama - Ouvi eu. É um aviso encoberto. Disse-me que era bom que arribassemos: porque a cada hora viamos a morte diante dos olhos! Nicolau Coelho, não é marinehiro que pense na morte.
Gonçalo Pires - Assim é.
Vasco da Gama - Mas disse mais. Que nós capitães, o não queriamos fazer era justo que tantos homens que iam em nossa companhia, que com lagrimas e rogos tão piedosamente podem que o façamos, o façam elles!
Gonçalo Pires - O quê?
Vasco da Gama - Ouvide: matando-nos ou prendendo-nos. Percebeis? Não é Nicolau Coelho que falla, que ameaça.
Gonçalo Pires - De certo. É um aviso, não é uma ameaça.
Vasco da Gama - E concluiu: que olhemos por nossas vidas, cada um por si, como ele próprio.
Gonçalo Pires - De certo. É um aviso, não é uma ameaça.
Vasco da Gama - E concluiu: que olhemos por nossas vidas, cada um por sí como elle próprio!
Gonçalo Pires - É uma revolta!
Vasco da Gama - Eu vou olhar pela minha. Chamae os meus creados. (Gonçalo sae; ouve-se ruído na tolda, apitos, vento) Arribar! Voltar! Podem gritar à vontade, pedir, vociferar; não vim para recuar como bartholomeu Dias. Havemos de lá chegar todos ou não volta nenhum. O capitão mór sou eu, eu só, vão vêl-o. (Entra Gonçalo e tres creados) Preparae-me as algemas e os ferros e sêde mudos. Estae ahi prestes para quando vos chamar. Depressa (Saem os creados) Ide acima e dizei a Diogo Dias, o escrivão, que desça, o mestre, o piloto e os officiaes. (Gonçalo sae). Vão ser attendidos. (Descem todos) Rapazes: que clamos são estes e brados, há tantos dias como gente louca?
1º Marinheiro - Capitão, ninguem pode já com tantos trabalhos e privações! Há dois mezes sem um dia de descanço, alagados, cheios de frio e de febre, a ver a morte a toda a hora, e a procural-a como gentes bestiaes.
2º Marinheiro - Queremos voltar, ou arribar, ao menos.
3º Marinheiro - Morrer ao pé dos nossos, na nossa terra.
1º Marinheiro - Isto é tentar deus. Não há salvação para ninguém: metade vão mortos; nós outros morreremos em pé.
Vasco da Gama - Julgaes, vós outros, que não seja tão desagradavel o morrer como a vós? Cumpria as ordens de El-Rei Nosso Senhor, cumpria. Que ora vou deixar de cumprir por me parecer que o devo fazer. Não me julgueis tão cruel que não me dôam vossas lágrimas e tormentos. Em vossos corpos mando,mas em vossas almas, não, e não quero dar conta a Deus das que se percam em peccado, na desesperação!
Vozes - Ah! Capitão.
1º marinheiro - Deus fallou á vossa alma.
Vasco da Gama - Trabalharemos pois, por nos salvarmos que em o mar e o vento deixando, arribaremos.
(Signaes de alegria, levantando as mãos ao céu).
2º Marinheiro - Capitão, Deus vos pagará.
3º Marinheiro - Nossa Senhora vos aude.
Vasco da Gama - Ouvi, porém. Como tenho de dar conta a El-Rei por que não cumpri suas ordens até ao fim, preciso de um auto assignado pelos mais entendidos em cousas do mar, em que prove que não por minha vontade voltei, sem chegar à India.
Vozes - Assignaremos, capitão, assignaremos.
1º Marinheiro - El-Rei não póde querer mais de nós.
2º Marinheiro - Temos feito quanto os homens podem fazer.
Vasco da Gama - Sr. Diogo Dias.
Diogo Dias - Sr. Capitão Mór.
Vasco da Gama - Ides lavrar o auto. Subi que eu vos chamarei aos poucos para assignardes. (Vão subindo). Fiquem tres dos marinheiros mais entendidos nas cousas do mar. Nomea-os vós, Mestre Gonçalo.
Gonçalo Pires, a tres marinheiros - Ficae, vós.
 (Os tres ficam, os restantes sobem; o escrivão faz o auto)
Vasco da Gama, passeia e dicta - Que depois de passarmos o cabo, nunca mais nos deixaram os temporaes, ao largar da bahia de S. Braz. Que há quarenta dias que o inverno nos cerca de tempestades; que não se distingue o dia da noite; que as correntes ora nos levam para diante, ora nos arrastam para trás, em todo o caminho andado. É isto?
1º Official - Sim, meu capitão.
Vasco da Gama - Que atirando-nos a dentro ao mar para evitar a costa, as naus jogam de modo que se abriram as cubas da agua e estamos de agora expostos a todos os horrores da sêde. Que os navios mettem agua por toda a parte e já não ha um homem são, para as bombas! Que mais de metade caiu doente e os que restam estão cheios de terror e de desanimo. Que se não ouve, dia e noite, senão gritar por Deus e pels santos e pedir a morte como remedio a taes soffrimentos e trabalhos! Que maldizem a hora do nascimento e que as almas se perdem no desespêro! Que assim cedo a seus pedidos, com a opinião dos homens sabedores, que assentam que no estado em que vão homens e naus a morte é quasi certa, de todos! Que assim me vejo forçado a ceder! Que veja El-Rei, etc. Estaes satisfeitos?
2º Official - Deus ouviu as nossas orações, que vos abrandou o coração, sr. Capitão mór.
Vasco da Gama, a um marinheiro - Abri essa escotilha. Descei sr. Escrivão (aos marinheiros) Ide assignar, em baixo (a Gonçalo) Chamae o mestre da nau, Gonçalo Alvares. (Gonçalo Dias sobe) Avisae (á escotilha que fecha) quando tiverdes assignado. (o mestre chega) Vindes assignar tambem?
O mestre da Nau - Sim, sr. Capitão mór.
Vasco da Gama - Achaes que é justo, que é honroso recuar?
O mestre da Nau - Entendo que se deve fazer, que é preciso.
Vasco da Gama - Tendes razão. Haveis de recuar. (para dentro) Lançae-lhe os ferros.
(Os creados apparecem e executam)
O mestre da nau - Sr. Capitão mór!
Vasco da Gama, tirando a adaga - Nem uma palavra, ou prego-vos a lingua. (A Gonçalo Dias) Dizei a Pero de Alemquer que desça. Tinheis então resolvido substituir-nos? Levar-nos presos a Portugal? Que bello premio vos daria El-Rei! (Pero de Alemquer chega) amarrae-me esse piloto maldito! (Os creados agarram-n`o de chofre) que vinha assignar a minha vergonha, com a sua cobardia! Cobarde, não velhaco! Chegou-te agora o medo? Coitado! Querias desforrar Bartholomeu Dias, que é capitão e obedece aos pilotos? Enganaste-te. Hei de levar-te a El-Rei, assim; acorrentadi como um sabujo! Elle te pagará a traição!
Pero de Alemquer - Senhor, pedir não é atraiçoar.
Vasco da Gama - Que pediste tu?
Pero de Alemquer - Eu, por mim, nada. Pedem-vo-lo, há vinte dias, todos os companheiros, porque é louco quem corre para a morte.
Vasco da Gama - Has de ver que ainda é mais louco, quem corre para a forca. (Á escotilha) Já assignaram esses sabios? Que subam. Ponde-os a ferros e mandae-mos todos a cima, ao convés! (Sobe a escada, porque em cima há grande grita).

publicado por promover e dignificar às 12:14

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