Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Professor Adriano Moreira

Professor Adriano Moreira.

 

 

 

 

  

Durante todo o período de hegemonia colonial dos ocidentais, que atingiu o ponto mais crítico no século XIX, a pobreza era um tema que os preocupados referiam às desigualdades internas das sociedades ocidentais, animando movimentos inspirados pendularmente entre a solidariedade religiosa e o projecto socialista de reformular o tecido social.

 

Nas vastas áreas dos impérios a perspectiva global dos centros de decisão política era a de expandir os benefícios da civilização, e no terreno a intervenção missionária, ainda quando também apoiada pelos governos, não tinha presença muito acentuada nas preocupações da opinião pública.

 

Sugiro que, na área ocidental, o livro de Charles Dickens, Oliver Twist, teve maior importância do que O Capital para modificar as perspectivas das forças políticas europeias, sobretudo emergentes, e que as sequelas das guerras impuseram e generalizarem o tema, desafiante da filosofia liberal, que vulgarizou o constitucionalismo político excluente dos desmunidos. O preceito de Jefferson, segundo o qual todos os homens nascem iguais e com igual direito à felicidade, todos intitulados para intervir no exercício do poder de sufrágio, excluía todos os escravos, as mulheres, os trabalhadores, os pobres. Estas breves referências pretendem ajudar a compreender as mudanças radicais que se verificaram, já não apenas nos territórios das potências ocidentais, mas também no plano internacional submetido a um globalismo avassalador.

 

 

No plano interno, e excluindo da problemática da pobreza as mudanças sociais e políticas dos estratos sociais que tiveram o sindicalismo como motor significativo, não podemos deixar de sublinhar as sequelas das guerras que assolaram o chão europeu. E por referência significativa lembro o livro de George Fink, intitulado Tenho Fome (Mich Hungert), apresentado o autor, na tradução brasileira, como um "astro meteórico das letras alemães, figura de lenda dentro do próprio século, que hoje já ninguém mais sabe se está vivo ou morto, se é homem ou mulher, se velho ou moço". Trata-se da miséria nos bairros de Berlim, tendo como protagonista uma família cujo personagem narrador faz esta síntese no ocaso da vida: "Estou contente por não haver ido além de guarda-livros. Porque somente aqui me encontro "em casa". Entre Wedding e Gesundbrunnen, onde minha mãe lavava roupa, onde Marcos começou a roubar e meu pai se embriagava. Nas ruas negras onde pedi esmola e vendi pontas de cigarro. É aqui somente que pode viver meu coração". Não obstante, o menino Teddy que simboliza no livro a infância martirizada, "quando lhe perguntam o que pretende ser quando for homem, responde – Quero ser bom". O sonho que o desaparecido autor lhe atribui, vem limitado por este lamento final: "quando eu morrer, haverá sempre um faminto maltrapilho e gelado que, numa esquina quando passarem sem vê-lo, sem ouvi-lo, murmurará pálido e trémulo. Escutai: Tenho fome… Tenho fome…".

  

As esquinas multiplicaram-se, e à medida que os conflitos militares se tornaram mais destruidores, como aconteceu com as duas guerras civis dos ocidentais, conhecidas como guerras mundiais de 1914-1918 e 1939-1945, também a pobreza emergiu mundial com um traçado contínuo sobre o globo. Muitos foram os que advertiram a nova visibilidade, mas deve ser destacado Josué de Castro, o autor do conceito, que fez história, da geografia da fome. Baseado na experiência que teve como Presidente da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, traçou no mapa do mundo uma nova fronteira que atropela todas as fronteiras políticas, mas que rapidamente encontraria expressão política desafiante logo que os factos obrigaram os ocidentais à descolonização.

   

A primeira manifestação dessa unidade esteve na surpreendente Conferência de Bandung, reunindo, em Abril de 1955, 2000 delegados do que foi chamado – Os povos mudos do mundo, uma iniciativa de Nerhu, que presidira à nascença do Estado da Índia. Estava em causa o homem branco, ao qual Kipling atribuíra o pesado encargo de civilizar o mundo. Em Janeiro de 1958, por iniciativa de Nasser, reuniu no Cairo, convocada pelo Movimento de Solidariedade Afro-Asiática, uma conferência abrangente da primeira iniciativa de Bandung, mas em nome dos colonizados pelos ocidentais. Nem todos povos de cor, mas todos abrangidos pelo novo critério traduzido numa capital de queixas contra os ocidentais, e com consciência clara da urgência de uma acção política: por então já a Coreia e o Vietname eram pesadas reivindicações contra hegemonias consideradas agressoras. Aconteceu que em 1968, já com Fidel de Castro no governo desafiante de Cuba, foi convocada uma nova Conferência para Havana, na qual o critério da pobreza se acrescentava aos anteriores. Com a novidade de ultrapassar o conceito de fronteiras exteriores dos ocidentais, a enfrentarem o desafio das soberanias emergentes pela descolonização, para estender a mão à pobreza interior dessas antigas sedes coloniais. Todos, povos de cor, povos colonizados, povos pobres, a identificarem-se como terceiro mundo, queixosos do capitalismo ocidental, definindo tal passada acção como simplesmente exploradora das riquezas das terras e dos braços dos povos. É por então que começam a circular nomes como os de Castro, Allende, Che Guevara, Marighella, Malcolm X, Luther King, e generais vindos da sociedade civil, como Giap e Mao, capazes de vencer os exércitos profissionais no campo de batalha. Seria Mao quem, como que actualizando o conceito de Josué de Castro, diferenciaria esse espaço como o mundo dos 3AAA – Ásia, África, América Latina, uma área agrária do sul do globo, a mobilizar contra a cidade planetária do Norte, esta afluente e consumista, antiga sede do poder colonial, prometendo estender ao conflito global a certeza que lhe deva a experiência doméstica de o campo ser capaz de vencer a cidade.

  

De então em diante, com muito sangue, suor, e lágrimas, derramados a fundo perdido, a pobreza não deixou de crescer em gravidade e ameaça.

  

Todos os anos, o PNUD elabora um Relatório sobre a situação mundial do desenvolvimento humano sustentado, e o alarme cresce sem intervalo. No Relatório de 2004, o ilustre Mark Malloch Brown escreveu o seguinte: "Para quem trabalha em desenvolvimento, esta não é uma questão abstracta. Para que o mundo atinja os Objectivos do Desenvolvimento do Milénio e acabe por erradicar a pobreza, tem que enfrentar primeiro, com êxito, o desafio da construção das sociedades culturalmente diversificadas e inclusivas." E acrescentava: "quando a cultura política não muda, as consequências são perturbadoramente claras. Dos grupos indígenas descontentes da América Latina, às minorias infelizes de África e da Ásia, e aos novos imigrantes de todo o mundo desenvolvido, não reconhecer as razões de queixa de grupos marginalizados não cria apenas injustiça. Cria verdadeiros problemas para o futuro; jovens desempregados e descontentes, zangados com o status quo e a exigirem mudança, muita vezes violentamente".

  

A atitude ocidental em relação a tais áreas da geografia da fome, não obstante as muitas iniciativas, deu sinais de cansaço em relação aos homens em situação de carência, e de interesse crescente sobre as riquezas naturais.

  

A África é, para nós, um dos continentes de maior preocupação, pela história que nos pertence, pela responsabilidade de intervenção que ali deixou profundas marcas, pelas relações das sociedades civis. O facto é que evolucionou, na perspectiva ocidental, para África Útil, isto é, petróleo, diamantes, minerais raros. Sem dúvida com progressos humanitários, designadamente da ONU e das suas organizações especializadas, mas com os países mais industrializados responsáveis pelo flagelo do tráfego de armas, que alimentam os conflitos sangrentos que não param, e que em mais de um lugar dão lugar a genocídios indescritíveis.

  

Neste panorama angustiante, destaca-se a voz dos que não têm poder, salvo o de apelar aos valores e estar ao lado dos desmunidos, incluindo os povos tratados como mudos, ou como dispensáveis. Por isso a intervenção do Concílio Vaticano II, proclamando o privilégio dos pobres, é importante na campanha, a que se juntam outras vozes, animando o debate sobre o papel da Igreja em face da angústia do mundo e do fosso entre povos ricos e povos pobres, por vezes na exaltação extrema como a do Padre Camilo Torres, ou dos desvios apaixonados como os da Teologia da Libertação na América Latina.

  

Enquanto as soberanias dos países ricos concentram as suas energias na luta contra a dependência energética, pela geografia da fome os Estados débeis ressentem-se das exclusões sistémicas que o globalismo económico provoca, não se reconhecendo tratados como iguais na ordem internacional em crise. Dentro dos Estados, sem exclusão dos mais ricos, grupos são excluídos dos padrões de vida que a sociedade de consumo dá por vigentes, confirmando as limitações da proclamação de Jefferson segundo o qual todos nascem iguais e com igual direito à felicidade. A globalização económica, que tratou com proveito e desumanidade a mão de obra vinda dos países pobres, luta agora para controlar o fluxo de trabalhadores, não oferecendo a cidadania aos que ficam, tentando repatriar os ilegais, opondo barreiras frágeis à multidão crescente, deparando-se facilmente com o facto de as migrações se transformarem em ameaça com as colónias interiores, ou, como em França, a desencadearem intervenções violentas que ultrapassam as capacidades securitárias. A velha política do recrutamento de trabalhadores temporários está esgotada. O multiculturalismo é um desafio, a justiça social um imperativo, a violência uma ameaça interna e internacional, a anarquia uma situação que se multiplica. O reconhecimento de que todos e cada um "são parte de uma humanidade interligada" é pressuposto de um regresso aos padrões da ética. E saber que cada homem é um fenómeno que não se repete na história da Humanidade, impõe que cada um seja reconhecido como portador de uma dignidade inviolável.

 

 

 

PROFESSOR ADRIANO MOREIRA

 

Pessoa que grangeu ao longo do seu percurso de acção política e socil notável credibilidade e detentor de elevada dignidade, este homem merece ser ouvido em tudo de que nos fala. No tema da sua conferência traçou vasto percurso dos ciclos da pobreza e da geografia da fome. A sua descrição tem de, imperiosamente, pesar nos critérios de quantos, a nível político e social, cabe a responsabilidade de trabalhar para a Promoção e Dignificação do Homem.

 

 

 

publicado por promover e dignificar às 12:44

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1 comentário:
De Cristiano de Assis a 22 de Dezembro de 2013 às 14:54
Eu fiz o upload do livro Tenho Fome, Georg Fink, no media fire. Creio ser uma obra que deve estar acessível a todos.

http://www.mediafire.com/download/hhp1kinhu8m4nfc/tenho+fome.pdf

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