Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Professor Guilhermino Pires

 

 

 

 

DOUTOR GUILHERMINO PIRES - Membro da Direcção da Comunidade Vida e Paz.

 

 

Esta comunidade desempenha notável trabalho na reinserção e apoio aos sem abrigo, que pouca gente conhece na sua plenitude. No tema da sua conferência, o Dr. A. G. Pires mostrou-nos como se faz a Promoção e Dignificação do Homem no terreno e deixou também um sentido apelo aqueles que podem e devem adquirir a sensibilidade necessária para com os problemas de seres humanos prostrados em humilhante degradação.

 

.

 

Considero uma honra, poder usar a palavra ainda que modesta, em nome daqueles que normalmente não têm voz, neste histórico e nobre areópago, de tão sábias intervenções.

 

Agradeço à Associação Portuguesa para a Promoção e Dignificação do Homem, na pessoa do seu Presidente o convite que nos fez. Apresento respeitosos cumprimentos, a todos os prelectores e a quantos se dignaram participar nesta sessão.

 

É inegável e evidente a carência de sensibilidade. Haverá que adoptar um ‘novo humanismo para o terceiro milénio’. (m/comunicação na UNESCO, Paris, Fevereiro de 2000). E PÔR O CORAÇÃO DO HOMEM NO CENTRO DA GLOBALIZAÇÃO.

 

COMUNIDADE VIDA E PAZ.

Seja-me permitido iniciar com uma breve apresentação multimedia.

 

A Comunidade Vida e Paz é uma IPSS. Brotou da iniciativa suscitada pela consciência da ‘comiseração’, considerando urgente agir com atitudes comportamen-tais, em gestos concretos, para a dignificação integral da pessoa humana. Surgiu como ‘Projecto de Esperança para os Sem-Abrigo’ desde 1989 (Dec. do Patriarca de Lisboa de 17 de Abril, sendo reconhecida ‘Pessoa Colectiva de Utilidade Pública’ em 22 de Junho). Quis e quer ser resposta para algumas solicitações dos mais pobres dos pobres, muitas vezes vítimas de causas sociais que injustamente conduzem à exclusão... (É que ainda falta ‘pôr o coração do Homem no centro da sociedade globalizada’ da nossa época pós-moderna...)

 

Para a CVPaz, o destinatário/alvo é a PESSOA - as pessoas - situadas, com perfil da marginalidade, numa existência desregrada e degradada, mais próxima do vegetar do que do viver: - os que vagueiam encolhidos sob o peso da fome, do frio e destruídos pelas dependências, que aparecem, arrastando-se pelos cantos e frinchas das nossas ruas. Os que não têm emprego; privados de amparo familiar e social, sem casa e sem afectos.

É pena que se tenha generalizado o conhecimento da Instituição (que tem carácter fundacional) com algum equívoco e imprecisão, com tendências redutivas da essência do seu projecto de reabilitação dos Sem-Abrigo. Por vezes confunde-se a identidade da ‘Comunidade Vida e Paz’ com ‘as carrinhas brancas com voluntários que distribuem alimentos e agasalhos aos Sem-Abrigo’, todas as noites, do ano todo. Ou então, com a festa anual do Natal dos Sem-Abrigo (que este ano faz a 20.ª edição). Mesmo esta requer um forte apoio à iniciativa de solidariedade em nome da civilização do amor. E o corpo de Voluntários dá-lhe a forma mais convincente do espírito que envolve a Festa. (Serão mais de 1.000 voluntários a coordenar e a servir, também à mesa, os quase 2.000 Sem-Abrigo esperados, desde hoje até domingo. (Permitam-me a liberdade de os convidar a passarem por lá nestes dias...).

Ora, o objectivo estatutário primordial da estrutura orgânica da CVPaz visa, sim, prestar assistência, espiritual e material, aos Sem-Abrigo - pessoas desprotegidas, consideradas como o ‘próximo’ no contexto evangélico da parábola do viajante ‘assaltado, ferido e roubado, a caminho de Jericó’. Neste palco cabe-lhe o papel de ‘Bom Samaritano’ - o único transeunte que parou, se apeou e condoeu, prestando os primeiros socorros, confiando, depois, o semimorto e desprezado, aos cuidados do estalajadeiro - quem podia e sabia tratar das feridas, até obter a reabilitação da vítima.

Nesta perspectiva de serviço autêntico, seja-nos permitido sintetizar em que consiste a ‘obra’ da CVPaz em prol da promoção e dignificação do Homem:

 

1.º ‘Não só de pão vive o homem...’. E a espiritualidade carismática da CVPaz é reflexo dos conceitos evangélicos das Bem-aventuranças, motivada pelo ’Recebestes de graça; dai, também, de graça.’ (Mt.10,8). Por isso age também segundo os critérios da doutrina social da Igreja, como testemunho e profecia da Nova Evangelização.

 

No ‘respeito pelos Direitos fundamentais da pessoa Humana, em espírito ecuménico e observância das liberdades constitucionais’, está instituído na nossa Comunidade um ambiente solidário de gratuituidade. E mais de 500 Voluntários efectivos regulares, constituem a ‘guarda avançada’ complementando as Equipas de Rua ou Equipas de Intervenção Directa – EID (com 5 a 7 elementos). Geralmente é no diálogo personalizado com cada Sem-Abrigo que as equipas convidam, induzem, convencem e guiam ao encontro no EAD (Espaço Aberto ao Diálogo). Este espaço de ‘audição permanente’ recebeu neste ano perto de duas mil pessoas que foram encaminhadas, inclusivamente, também para outras Instituições mais consentâneas com o seu estado, sobretudo no foro da saúde física e mental. Ele foi criado (em 2005) para permitir o diagnóstico e a identificação com as problemáticas de cada um. É aqui, então, que se inicia o processo individual de recuperação através do desafio proposto à manifestação firme da própria vontade para uma radical mudança de vida. Implica aceitação – vinculativa - na adesão livre aos tratamentos adequados a cada caso. Esses tratamentos, de média e longa duração, são de 9, 12 a 13 meses. Dos 240 que iniciaram o processo este ano, já foram reinseridos mais de uma centena. A taxa de sucesso, embora lisonjeira, humildemente reconhecemos que ainda não satisfaz. Queremos mais e melhor. Mas poderá considerar-se que este é o PROJECTO de esperança rumo à inclusão.

 

A partir de sede em Lisboa, numa dinâmica de intervenção, com mais de cem funcionários, actua-se em ordem à prossecução do objectivo essencial do plano estratégico. Não será despiciendo compendiar o nosso trabalho em três verbos conjugados no plural, dado que são as Equipas de Rua, Técnicas e Terapêuticas, nos 3 Centros de Tratamento/Reabilitação, e Formação Profissional (mediante acções de terapia ocupacional), que asseguram o apoio (com bastante sucesso) da metodologia do processo (entre 55 a 60%) para a reinserção/inclusão social dos nossos Utentes.

Sirvo-me da letra R (maiúscula), no prefixo re, com a raíz nos voluntários das Equipas de Rua. As várias equipas, que, ao darem o alimento do corpo, privilegiam o alimento religioso do espírito, para uma reconquista ‘sustentável’ da personalidade com a disposição para reformular a própria vida. Assim cabe-nos ser casa –Comunidade -, promover o retorno ao respeito e afeição pela Vida, o re-encontro de si e da verdadeira Paz, a do espírito. E a missão de acolher escreve-se não com um, mas com 3 Rs - RecolherRecuperarReinserir; como contraponto à rejeição, à recusa, à repressão infelizmente tão presente no comportamento de uma grande parte da sociedade displicente, perante os excluídos... tantas vezes fonte de recaídas e revolta...

 

Sabemos que na nossa actuação em muitos casos se trata de primeiras tentativas implicando a adesão voluntariosa e consciente, em ordem à própria inserção/inclusão, por nunca terem deparado com oportunidades... Nós somos a ‘coincidência’ que alguém definiu como a ‘presença de Deus escondido no anonimato’...

Lamentavelmente são muitos, e cada vez mais, os Sem-Abrigo de cariz toxicodependente e alcoólico, acrescidos com muitos ‘novos pobres’ (escondidos – a tal ‘pobreza envergonhada’), que as equipas encontram nas ‘Voltas’- as ‘rondas nocturnas dos voluntários’...

 

Talvez fosse interessante conhecer agora alguns dados estatísticos. Eles estão disponíveis na nossa página Web (www.cvidaepaz.org). Mas estamos sempre ao dispor de quem pretenda melhorar o conhecimento sobre a Comunidade. Sobretudo para esclarecer opiniões e ajudar a concretizar alguns dos vários projectos para um serviço mais eficiente. Como a eficácia se mede pelos resultados, os números falam por si. Ao desenvolver nos utentes/residentes, sobretudo, a consciência da sua dignidade humana e a convicção das suas capacidades de realização pessoal, a Comunidade Vida e Paz já contribuiu para tratar, recuperar e reinserir na sociedade mais de um milhar de cidadãos.

 

Seja-me permitido sublinhar: a Comuniudade Vida e Paz além da sede em Lisboa, dispõe de três Centros de reinserção social, integrando anualmente no mercado do trabalho 100/105 Sem-Abrigo recuperados, depois de os habilitar com conhecimentos profissionais que agilizam e favorecem a empregabilidade, ou seja a sua reinserção na vida, em sociedade, cônscios da sua cidadania.

 

A muitos orientou e orienta para cursos técnicos e tecnológicos garantindo-lhes o exercício de uma profissão e equivalência escolar. Porém, a antítese reside na pouca aceitação ou até recusa em empregá-los. Donde todas as consequências decorrentes, inclusive as recaídas. As empresas e a sociedade precisam de pôr o coração do homem no centro da globalização, para evitar o recrudescimento da crise... e enveredar por um ‘desenvolvimento sustentável’

 

 

 

 

EAD -

 

A UD - Constitui um contributo assinalável para a redução da toxicode-pendência, a Unidade de Desabituação, agora com capacidade para 130, a funcionar com a duração de 10/11 dias. Em média estão 3 grupos de 5 utentes por mês. A taxa de ocupação é crescente. Até ontem (18 Dez.), entraram 98. Todos passam pelo acolhimento no EAD, conduzidos pela Equipas de Rua.

 

Tendo por objectivo último, num projecto de reencaminhamento para a esperança, a sua reinserção familiar, social, escolar e profissional, a Comunidade proporciona aos seus utentes uma experiência de vida familiar, em sociedade, um programa terapêutico e instrução técnica para o desempenho de uma profissão, recorrendo a parcerias, inclusivamente com o IEFP até ao nível 3 da euroqualificação...

 

 

Depois de considerados recuperados, alguns ingressam nos apartamentos, com a filosofia das UVAU - Unidade de Vida Autónoma – onde lhes é facultado um treino para se auto-governarem, enquanto esperam um emprego...

 

Na COVIPAZ dispomos de uma espécie de pequena empresa cooperativa constituída para ocupar aqueles que tendo concluído com êxito o tratamento, aguardam ser chamados para um trabalho digno. Como que ‘estacionam’ ocupando-se com contratos temporários em prestação de serviços indiferenciados, inclusive às Autarquias, por exemplo nas limpezas de ruas e estradas, na jardinagem, etc., adquirindo experiência e percebendo um salário em conformidade, que administram autonomamente. Outros conseguem regressar às suas famílias ou re-constituir o seu lar.

 

Resumindo: a intervenção desenvolvida pala CVPaz junto dos Sem-Abrigo, seguindo um critério sequencial, tem em conta diversos tipos de resposta (‘Voltas’; ‘Acolhimento/EAD’; ‘Comunidades Terapêuticas’ – neste momento com quase 250 residentes; ‘Comunidades de Inserção’; ‘Apartamentos/UVAU’; e a COVIPAZ. Todos tendem a complementar-se.

 

Resta-me pedir desculpa por me ter alongado... Agradeço a atenção dispensada.

 

E formulo, em nome da Comunidade Vida e Paz, os melhores votos de Boas-Festas de Natal e Bom Ano 2009.

 

Lisboa, 19 de Dezembro de 2008.

 

       

    1. Guilhermino Pires

       

    2. membro da Direcção da Comunidade Vida e Paz.

       

      ........///.........

       

       

      O egoísmo isola. Devíamos ser canais da vida de Deus para os outros e já não somos.
      E por isso estamos mais pobres, mais fragilizados.

       

       

       

       

       

       

       

       

       

       

É aqui, que se organiza, quando é caso disso, o seu processo clínico e encaminhamento para desintoxicação. Destes, cerca de 140 deram entrada nos Centros de tratamento e recuperação, para além de mais algumas dezenas de pessoas provenientes de outros locais do País e imigrantes estrangeiros..., em circunstâncias deploráveis. Assim, nos 3 Centros de recuperação - o Centro da Quinta do Espírito Santo (Sobral de Monte Agraço), o Centro da Quinta da Tomada (Lapa, Venda do Pinheiro) e o Centro de Fátima (Moimento) - estão internados cerca de 240. Cada um é encaminhado para o programa mais adequado num dos Centros, compatível com a resposta de maior eficácia requerida para o caso.

 

 

 

 

Minhas senhoras e meus senhores. Falo em nome da

 

 

publicado por promover e dignificar às 12:04

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