Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

Pagina 5

A ESCULTURA TUMULARIA

 

 Numa abordagem da Escultura no campo da arte funerária. Surgem momentos na história em que se opera uma fusão entre a escultura e o espaço arquitectónico. Não deixámos de sentir a necessidade de manter esta inter-relação nos momentos que nos pareceu de todo impossível fazê-lo.
  Desde a Antiguidade a escultura funerária tem ilustrado a simbologia do poder Imperial, Real, Político e Religioso. Pautada na essência pelo registo da heroificação do Homem e pela sua fixação num determinado contexto espacial e temporal, a escultura tumular opera uma dinâmica entre a vida e a morte cuja ponte mágica, traçada à luz das qualidades humanas transversais à própria História, é o amor.
   A estatuária tumular do Império Antigo no Egipto (2660 a.c. – 2180 a.c.) servia fins específicos que se prendiam com a preservação da vida, ou seja, constituíam –se como receptáculos de vida onde são introduzidos o Ka e o Ba, princípios imateriais presentes em todos os seres humanos, de quem a encomendava. As suas dimensões eram variáveis, desde a estátua colossal que era edificada no Templo até à estatueta que acompanhava o defunto.
  A relevância desta estatuária residia na sua função de preservação da vida e na arte pela arte. Testemunha de elevado rigor de execução, de equilíbrio, de graciosidade e de mistério. A estatuária tumular não pretendia ser exibida e portanto não se revestia da necessidade de ser "bela".
   A produção de estatuária tumular egípcia era elaborada por artesãos especializados designados por hemu, que significa "aquele que modela corpos em metal, madeira ou pedra para os fazer viver eternamente" ou por seank ,"aquele que dá a vida". Esta forma de vida era atribuída pelo sacerdote à estátua e realizava-se através de orações escolhidas no "Livro dos Mortos"e pelo ritual transcendente que consistia na "abertura da boca", ou seja, o sacerdote tocava na boca da estátua com um instrumento, só após o ritual a estátua estava terminada. A liturgia articulava simultaneamente a vida e a palavra.
  Os modelos utilizados na produção da estatuária obedeciam à lei da frontalidade que consistia no estabelecimento de uma linha vertical que dividia a imagem para a manter hirta a partir do eixo central, o movimento poderia ser sugerido através de um ténue avanço da perna esquerda, em estátuas sentadas não se observava a sugestão de qualquer movimento.
  Os materiais variavam entre a pedra, sendo este o material mais nobre pelo seu carácter sólido, dando até origem, numa fase posterior, às "estátuas – cubo" pela sua robustez, a cerâmica e o marfim.
  A produção de escultura no Império Médio (2180 a.c. – 1560 a.c.) numa primeira fase deste Império, assiste a uma profunda transformação no plano formal, engendrada no seio de um forte academismo que opera duas correntes de pesquisas. A primeira no campo da representação psicológica do rosto da figura humana, esta corrente está ligada a Tebas e a segunda corrente ligada ao academismo de Mênfis preocupa-se essencialmente com a estilização na representação do corpo humano. Considera-se portanto que o realismo de Tebas aborda a vertente divina do homem, enquanto o idealismo de Mênfis revela o deus humano.
  O desenvolvimento das pesquisas formais, operadas pelas correntes de Tebas e Mênfis, na arte da escultura tumular, desenvolve-se ao longo do Império Novo (1560 a.c. – 1070 a.c.), multiplicando-se em soluções que buscam cada vez mais a elegância das formas, soluções impulsionadas pela própria feminilidade da rainha Hatchepsut que determinam o Império Novo como o Império da elegância.
O nascimento da monarquia faraónica ficou registado na paleta de Narmer, executada em escultura de baixo-relevo, perdurou três mil anos e termina na dinastia Ptolomaica cuja tónica permite desde logo antever o domínio de Roma.
Na escultura grega, a partir do ano 1000 a.c., observam-se várias fases individualizadas por características próprias, as estátuas são concebidas formalmente em linhas ondulantes conducentes à sensação de nobreza e magnitude. As características gerais de que são dotadas as estátuas gregas assentam nas noções de proporção, simetria e simplicidade, esta nova consciência, resultante das primeiras noções de carácter experimental forjadas no Egipto, implica à priori uma determinante maturação das formas e autonomiza-se muito rapidamente num formalismo completamente distinto e original.
  A escultura tumular grega está em relação com as colunas en cimadas por edículas cujo tratamento é apresentado em relevo, conservadas ainda em Kerameikos um cemitério de Atenas. A figuração humana constitui a temática dominante da escultura funerária onde predominam cenas da vida quotidiana ricas em informação para estudos sobre a vida da época.
  No século IV a. C., ocorre uma grande profusão de encomendas de estátuas para os túmulos dos príncipes bárbaros dos quais se salienta o túmulo de Mausolo (c. 335 – 330 a.c.), ou Mausoléu, em Halicarnasso onde o artista Escopas revela novas soluções técnicas através da inclinação da cabeça, presente num dos frisos da Mausoleu, pela profundidade do campo dos olhos e pela excelente qualidade plástica na representação do movimento.
  A partir do ano 100 a.c. a cultura romana domina a cultura grega, verificando-se um retrocesso à lei da frontalidade na concepção formal da escultura, paradoxalmente observa-se a introdução da noção da luz em soluções de contraste entre o claro e o escuro. As práticas funerárias romanas inicialmente incidem na incineração, voltando a praticar-se a inumação na época de Adriano onde surge a produção de sarcófagos adornados com relevos e assentes em estratégias de negócio como a exportação.   
  Os sarcófagos romanos geralmente têm forma oval remetendo, para a mitologia relativa ao vinho, à forma do lagar. Os motivos podem incidir sobre padrões vegetalistas como parras ou em cenas figurativas alusivas a batalhas, cenas de caça, seres marinhos, musas ou podem adaptar para o plano da figuração as quatro estações do ano.
  Em Portugal a escultura funerária adquire relevância a partir da época românica (séc. XII – XIII), anteriormente a produção tumular esculpida era muito escassa contudo pode e deve ser exemplificada, pela sua excepcionalidade, no túmulo de São Martinho de Dume (518 – 579) Bispo da Diocese de Braga e ainda pelo túmulo de Nausto, Bispo de Coimbra.

  As profundas alterações mentais e o desenvolvimento dos transportes proporcionaram o desenvolvimento do trabalho artesanal, a ideia do juízo final e do Purgatório conduzem, paralelamente, à ideia de construção do paraíso na terra de onde surgem as construções de lugares sagrados adequados a albergar as linhagens mais proeminentes durante a estadia no além. No séc. XII os túmulos são constituídos por soluções formais muito simples, as tampas surgem com características planas ou ligeiramente convexas. A partir do séc. XIII o tratamento formal da tampa tumular torna-se mais complexo destacando-se desde logo uma vertente mais angulosa testemunhada no túmulo de Egas Moniz presente no Mosteiro de Paços de Sousa. A simplicidade do túmulo de D. Afonso Henriques presente em Santa Cruz de Coimbra impressiona de tal maneira o rei D. Manuel I, que este resolve encomendar um novo túmulo bastante mais ousados no plano formal. Esta ideia de D. Manuel I revestida da mais nobre das intenções não deixa de ser, hoje, um "mistério" para o observador devido à incongruência cronológica apresentada entre a datação da obra e a datação da morte efectiva de D. Afonso Henriques.
  O estilo Românico nacional presente na escultura tumularia denota um desenvolvimento tardio em relação à Europa.
 
 Panofsky refere dois tipos de temas presentes na produção dos sarcófagos graníticos deste período. O primeiro, "prospectivo", está relacionado com a presença de representações de Leões protectores que podem suscitar medo ou segurança. O segundo, "retrospectivo", corresponde à representação de temáticas ligadas à vida terrena do tumulado. Esta gramática será plenamente maturada pelo Gótico nacional a partir de dois grandes núcleos de produção localizados em Coimbra e no Mosteiro da Batalha. Jamais tendo a intenção de retirar a importância de núcleos como o de Santarém (bastante carente em dinâmicas expositivas e de restauro do Património), Lisboa ou Évora mas é na Batalha que reside o túmulo de inspiração para a elaboração deste texto sobre arte tumularia. Trata-se do Tumulo conjugal da primeira geração da Dinastia de Avis D. João I e D. Filipa de Lencastre, localizado ao centro da Capela do Fundador, à direita da entrada do corpo da igreja.
  Em texto anterior publicado neste jornal fez-se alusão às nobres qualidades deste casal, à ínclita geração resultante desta aliança e também à influência da cultura inglesa de D. Filipa vertida na produção literária cavaleiresca e novelesca nacional.
   Pois bem agora optámos por um percurso cheio de " grandes Avenidas inerentes à construção da História da Arte"para que o leitor, ao "espreitar" a Vitrina da História da Arte Tumular Esculpida, se deleite com a serenidade do gesto humano representado e eternizado por um autor desconhecido, com a perfeição da unidade estilística perpetuada pela luz, com a qualidade da elegância humana alcançada na posição dos corpos deitados e individualizados pelo livro e pela espada e que me diga se sente ou não a magia do amor detalhadamente "encenada" pelo Escultor.

 

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publicado por promover e dignificar às 13:32

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